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Casas em Perigo

Augusto Santos Silva

Casa da Música corre perigo. Com o edifício em fase de acabamentos e a abertura marcada para daqui a menos de sete meses, não se sabe qual vai ser o seu estatuto e modo de funcionamento, quem serão os proprietários, quanto custarão por ano as actividades, quais são as receitas previstas e qual o modelo de financiamento, quem constituirá a direcção, quais serão as linhas gerais de programação e em que consistirá, concretamente, a primeira temporada. Mais: nem sequer se consegue perceber o que pensam os actuais accionistas, Estado e Câmara Municipal do Porto, sobre os próprios fundamentos da existência da Casa da Música: vai ser um organismo de produção ou apenas um espaço de acolhimento?; vai manter os agrupamentos que criou, o Remix Ensemble e o Estúdio de Ópera, alterá-los, criar outros?; vai ou não integrar a Orquestra Nacional do Porto e, se vai, em que condições e de que modo?; vai dirigir-se às várias formas de criação e espectáculo musical ou vai quedar-se por algumas (e quais)?

Mais: hoje, nem se sabe a quem "pertence" a Casa da Música, quem responde pelo projecto! Se lermos o programa do Governo, veremos que o Ministério da Cultura, que representa o accionista Estado, se propõe continuar a apoiá-la - como se fosse coisa a si estranha, que ajudará como ajuda outras, na medida das possibilidades. Se virarmos o olhar para o lado do outro accionista, lá teremos o edil a garantir que não porá nenhum cêntimo de seu no empreendimento... A Casa da Música está órfã, é uma criança mal querida e enjeitada.

Desde logo, porque os que conceberam o projecto e puseram em prática os seus primeiros elementos estruturantes (a centralidade dos serviços educativos, a valorização do envolvimento das populações, a internacionalização, a abertura às várias músicas, a produção própria, etc.) estão hoje afastados. Não porque se afastassem, mas porque foram afastados, porque foram intencional e calculadamente afastados. Refiro-me a Pedro Burmester, a Fausto Neves e outros mais, na área da programação como na das obras. Perdeu-se qualquer tipo de vinculação entre a forma presente e a concepção do projecto.

Depois, porque a Casa da Música foi tomada de assalto, desde o segundo semestre de 2002, por quem a odeia, a ela e a tudo o que ela representa. Refiro-me, como é bom de ver, ao actual presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, e ao seu círculo de influências, que capricham em comportar-se, em matéria de cultura, como se fossem trogloditas. O máximo absurdo, porém, é que os mesmos que não perdem ocasião de troçarem do projecto inicial e de se marcarem do seu futuro são afinal os que põem e dispõem na administração! E nem sequer a instabilidade gerada na Casa da Música, com três administrações em dois anos, auditando-se umas às outras, e quase duplicando o valor global da despesa, consegue despertar o Ministério da Cultura, de longe o accionista principal, da letargia em que se afundou!

A Casa da Música dispensa os obcecados e as suas obsessões. Dispensa, também, a mesquinhez que prevalece em tantos meios sociais, jornalísticos e políticos, e é incapaz de perceber que não se pode comparar o valor final de uma obra com uma estimativa genérica feita antes de qualquer concurso e projecto, mas sim com o valor da adjudicação. Dispensa lógicas de perseguição e maledicência que põem atrevidamente em causa pessoas (como Artur Santos Silva e Teresa Lago) que têm uma vida inteira de serviço e mérito. O que a Casa da Música pede é coisa bem diferente. Pede que o Governo se decida de uma vez por todas, e diga que modelo de organização e gestão quer, e com que financiamento. Pede - ou pediria - uma gestão profissional e qualificada, exercida a tempo inteiro e por quem gostasse de cultura e percebesse minimamente de gestão cultural. Pede - ou pediria - autonomia e visão de programação a prazo. Pede - ou pediria - a participação empenhada das instituições e agentes locais, desde autarquias a empresas, que compreendessem o óbvio, o seu próprio interesse em que o projecto vingasse e a ele ficassem associadas. Pede - ou pediria - que os poderes e a opinião pública entendessem, de uma vez por todas, que este é o projecto maior da cultura nacional, no início deste século.

Infelizmente, parece que já não se pode ter grandes esperanças. Para mais uma crise, que foi a demissão de Alves Monteiro, a solução tornou a ser reforçar a influência de Rio e afastar mais a Casa da Música da sua razão de ser. A nomeação de mais uma ministra representou, não a afirmação clara do valor estratégico do projecto, mas mais suspeitas, mais recuos, nenhum impulso. E, entretanto, vai-se perdendo a sementeira.

2. Outra casa essencial está também em perigo: a Caixa Geral de Depósitos. Já não bastava ter ficado meses paralisada pela luta de facções do PSD, desenvolvida ao abrigo de uma excêntrica bicefalia, em que o presidente supostamente não-executivo detinha pelouros de gestão fundamentais. Agora, com a entrada de Celeste Cardona e Norberto Rosa, fica transformada num depósito de ex-governantes em busca de emprego rápido. A Caixa Geral de Depósitos é um banco, trabalha num mercado altamente competitivo, em que os maiores grupos financeiros procuram naturalmente os gestores mais qualificados e treinados do sector. Ora, basta ver a forma como é noticiada a nova administração para notar o perigo: ninguém consegue valorizar as capacidades e a experiência de Celeste Cardona na área para que se dirige, o facto é que à tradicional partilha de influência política entre PSD e PS se junta agora o CDS!...

A ascensão política desta direita começou, lembra-se?, com a proposta do então Durão Barroso de privatização da Caixa. Cavaco Silva travou-o. Mas há outra forma de privatizar a Caixa: é deixá-la degradar-se e perder-se. É isto que pretende Santana Lopes?

Público - 25/9/2004



   
9 de Fevereiro de 2010






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