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Escolhas
Paulo Pedroso
Sócrates quer (e tem) a seu lado um coro de presidentes
Desde que Durão Barroso optou pela
Comissão Europeia em detrimento da chefia do Governo de Portugal e Jorge Sampaio
preferiu indigitar um primeiro-ministro cooptado numa reunião de dirigentes
partidários a convocar eleições antecipadas, abriu-se, a meio da legislatura, um
novo ciclo político. Ferro Rodrigues acelerou-o, ao assumir sobre si a derrota
que foi de todos aqueles que defendiam que a situação criada por Barroso
justificava a dissolução do Parlamento.
No PS, no próximo fim-de-semana, serão tomadas decisões importantes para o modo
como se vai viver o próximo ciclo político. Querem os militantes do PS, agora,
um partido de ideias fortes ou uma sigla atrás de uma cara?
Há quem queira, e só, que o PS ganhe, transformando um resultado desejável num
valor primordial. Quem, para isso, defenda o apagamento das matrizes
ideológicas, sem "preconceitos", quem não queira discussões sobre certos temas,
porque podem ser "prejudiciais". Assim se constrói um estafado "plano
tecnológico", que retoma diagnósticos consensualizados e se finaliza em
propostas vaguíssimas. Assim se constroem silêncios, como os do que fazer à
legislação do trabalho e à lei de bases da Segurança Social do PP-PSD.
Mas também há quem queira um partido de transformação social e inconformismo,
que deseja a vitória para, com ela, inovar e mudar, não para ficar ao meio. Quem
não sacrifique os níveis de emprego no altar neoliberal, quem não tenha dúvidas
de que os trabalhadores são o elo mais fraco nas empresas, quem defenda que a
melhoria do nível de vida só ganha eficácia social quando se espalha a riqueza,
quem queira diminuir injustiças, desigualdades e incertezas, quem veja no Estado
um instrumento para regular os mercados, para projectar os futuros e para
proteger as vítimas dos problemas presentes.
Alegre apela aos militantes que querem o segundo tipo de partido, Sócrates aos
que querem o primeiro. Alegre escolherá as causas, Sócrates aceitará as
eleitoralmente rentáveis. Quando se debate a Esquerda moderna, Alegre centra-se
no substantivo, mais sólido, Sócrates no adjectivo, mais plástico.
Para os defensores do partido-adjectivo, quanto mais estruturada e obediente for
a pirâmide que emana do grupo que o dirige até aos militantes, melhor, porque
assim se garantem incómodos menores ao "politicamente correcto".
Se acreditarmos que José Sócrates não era candidato antes de o ser, foi
escolhido em concílio, na tentativa de que fosse candidato único.
Consecutivamente, foi entronizado pelos dirigentes máximos das estruturas
intermédias e correu, numa vertigem avassaladora, para os braços de presidentes
de Federação, presidentes de Câmara, até presidentes de Federação da JS.
Sócrates quer (e tem) a seu lado um coro de presidentes: no Porto, o presidente
da Federação, Francisco Assis, o presidente da Mesa da Federação, Narciso
Miranda, o presidente da Concelhia de Matosinhos, Manuel Seabra. Agora espera
que os militantes concordem.
A candidatura de Alegre começou inorgânica e não ambicionou unanimizar
estruturas. Algumas vezes foi mesmo barrada pela cultura política que se
expressa nos termos: "o secretariado decidiu que a secção apoia x".
O PS, depois destas eleições, será, mais do que hoje, um partido de estruturas
ou de cidadãos-militantes? Será, mais do que hoje, um partido de resultados ou
de causas? Em tempo de escolhas, também escolhi: o posicionamento de Manuel
Alegre.
JN - 21/9/2004
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